23 abril, 2009

Dia do Livro

Os livros sábios,JONATHAN WOLSTENHOLME


Com uma poesia aparentemente contrária ao espírito do dia, de Fernando Pessoa e magistralmente declamada por João Villaret, celebremos o Dia do Livro:


Liberdade - João Villaret

LIBERDADE

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

22 abril, 2009

Dia da Terra


Hoje é o Dia da Terra. Celebremos a data com um telúrico poema de um médico transmontano enxertado em Coimbra e que, como nós, sendo das Ciências, amava a Terra e a Poesia...

A terra

Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.

Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.

Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.

Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!

E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.

Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!

A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!


Miguel Torga

01 abril, 2009

Humor: as mentiras da ciência


Informação recebida do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra:

É possível fazer pipocas com telemóveis? E ir ao Pólo Norte visitar os pinguins? O cientista de serviço no suplemento satírico do jornal Público, David Marçal, vai estar no Museu da Ciência da UC para fazer revelações que podem surpreendê-lo

Promete ser, no mínimo, uma experiência desconcertante: David Marçal, cientista e criativo do suplemento satírico "O Inimigo Público", vai ser o protagonista da próxima sessão do ciclo Ciência em Família do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC). No dia 5 de Abril (domingo) às 11 horas, pequenos e graúdos vão poder descobrir algumas das mais intrigantes mentiras do mundo científico.


Há vídeos do YouTube que parecem não deixar espaço para dúvidas: mas será mesmo possível fazer pipocas apenas com as radiações dos telemóveis? E, se nos apetecer, podemos viajar até ao Pólo Norte para fotografarmos os pinguins? E se não tivermos à mão uma panela, podemos ferver água num mero saco de plástico?

Há coisas que parecem possíveis, mas não são. Outras parecem mentira, mas são perfeitamente reais. E a ciência explica porquê. David Marçal é o detective de serviço no Museu da Ciência da UC e vai ajudar as famílias a explorarem a fronteira entre o possível e o impossível.

David Marçal é licenciado em Química Aplicada e doutorado em Bioquímica Estrutural pela Universidade Nova de Lisboa. Foi jornalista de ciência do jornal Público e é, desde 2003, um dos autores do suplemento humorístico daquele diário, "O Inimigo Público", onde escreve sátiras científicas. Foi ainda autor de textos científicos para crianças na revista Kulto.

Investigador do Instituto de Medicina Molecular da UC, David Marçal está actualmente a desenvolver um projecto de pós-doutoramento em comunicação e divulgação de ciência com recurso ao teatro e ao humor. É autor do blogue convidado do jornal Público "Contagem Decrescente".

As sessões do ciclo Ciência em Família decorrem das 11.00 às 12.00 horas e destinam-se a crianças e adultos de todas as idades. A participação requer marcação prévia e poderá ser feita através do número de telefone 239 85 43 50. O custo é de apenas 3 euros por pessoa.

Para mais informações poderá aceder ao site do Museu da Ciência ou ainda espreitar algumas das actividades desenvolvidas no Ciência em Família num spot do YouTube.



Adaptado de post do Blog De Rerum Natura

28 março, 2009

"100 Horas de Astronomia"

Portugal pronto para “maratona astronómica” mundial

Projecto-Chave do Ano Internacional da Astronomia já conta com diversas iniciativas em território nacional

O Ano Internacional da Astronomia (AIA2009) promove entre dois e cinco de Abril um dos mais ambiciosos projectos do ano, as "100 horas de Astronomia". O objectivo é simples e o desafio estimulante: fazer com que, pelo mundo inteiro e ininterruptamente durante 100 horas, as pessoas possam observar o Universo através de um telescópio, assistir a uma palestra sobre um tema de astronomia, ver uma sessão de planetário ou descobrir na Internet como trabalham os investigadores. Em Portugal, os astrónomos profissionais e amadores mobilizam-se para proporcionar ao público quatro dias e noites de festa astronómica. Com 28 eventos organizados de Norte a Sul do país, Portugal figura entre os países mais dinâmicos da Europa. E as iniciativas prometem multiplicar-se até ao início das celebrações.

Com mais de 1500 eventos programados em perto de centena e meia de países, as “100 Horas de Astronomia” afiguram-se como o maior evento científico de sempre aberto ao público. Cerca de um milhão de pessoas, nos cinco continentes, devem participar na iniciativa. Essa maratona astronómica, nunca antes realizada, também vai acontecer em Portugal. A organização nacional do AIA2009 convida os portugueses a fazer parte desse projecto recorde, ao deslocar-se até um dos pontos de actividades para espreitar através dum telescópio e descobrir a beleza do céu.

Mas não só. Inspirando-se das três principais iniciativas que vão animar as “100 horas de Astronomia” à escala global (“Around the World in 80 Telescopes”, “Global Star Party” e “Sun-day”), Portugal, que segue de perto países como a Suíça, a Alemanha e a França na organização do projecto, vai entre 2 e 5 de Abril realizar diversas actividades originais, abertas a todos, de Trás-os-Montes ao Algarve (http://www.astro.up.pt/caup/eventos/aia2009/100horas/where.php).


ACTIVIDADES NOS CENTROS, NAS RUAS OU A PARTIR DE CASA

Para celebrar a Astronomia, será por exemplo possível aderir às “astrofestas” que vão ter lugar entre Lagoa e o Carvoeiro ou em Ponte de Sor ou, mais simplesmente, participar nas noites de sexta-feira (3 de Abril) e de Sábado (4) numa das sessões do “E Agora eu Sou Galileu” (em Lisboa, Espinho, São Pedro do Estoril, Constância, Mira, Coimbra, Faro, etc...), outro projecto promovido a nível nacional pelo AIA2009 que se associa às “100 Horas de Astronomia”. Nesse âmbito, qualquer astrónomo amador que tenha à disposição um telescópio é convidado a disponibilizar os seus meios de observação em locais públicos, de modo a que possa partilhar o céu nocturno com o maior número de pessoas possível.

Os interessados poderão também acompanhar a partir de um ponto de retransmissão ou em casa, pela Internet, “A Volta ao Mundo em 80 Telescópios”, um webcast vídeo de 24 horas com ligações em directo aos mais importantes observatórios astronómicos do mundo. Com início marcado dia 3 às 10 horas da manhã (hora portuguesa) no Havai, e até ao dia seguinte à mesma hora, essa transmissão feita pela Ustream.tv pretende abrir pela primeira vez as portas desses centros e mostrar como trabalham os astrónomos profissionais dos observatórios mais avançados do planeta, no Chile, nas Canárias e na África do Sul, entre outros, permitindo ainda ao público questionar os especialistas através do envio de mensagens electrónicas.

As “100 Horas de Astronomia” portuguesas contam também com momentos únicos. O Centro Multimeios de Espinho propõe assim às famílias um serão inédito no Sábado 4 de Abril: de saco-cama às costas, pais e filhos irão experimentar passar uma noite ao “relento”, dentro do Planetário. O “Acampar no Planetário” propõe ao longo da noite diversas actividades pedagógicas em que os mais novos serão familiarizados com alguns conceitos do Universo e irão descobrir diferentes constelações. Em Paços de Ferreira, as crianças irão também pernoitar sob as estrelas. A pensar nos mais crescidos, o Centro de Astrofísica da Universidade do Porto (CAUP) promove a difusão de um filme promocional sobre as “100 horas de Astronomia” nos comboios e estações do Metro do Porto.

A Escola Secundária Domingos Rebelo (Ponta Delgada) organiza ainda o I Congresso Internacional de Astronomia nos Açores (O Universo nos Açores: http://www.angra.uac.pt/aia2009/The%20Universe%20in%20the%20Azores.pdf) aberto a professores, alunos, astrónomos amadores e a todos os interessados em Astronomia. Durante os 3 dias das "100 Horas de Astronomia", vai igualmente decorrer no NUCLIO (São Pedro do Estoril) uma maratona de outro género: os promotores do Galileo Teacher Training Programme (http://www.astronomy2009.org/globalprojects/cornerstones/galileoteachertraning/) de 40 países diferentes vão encontrar-se online e comunicar via Internet para mostrar o que estão a desenvolver no seu país no âmbito do programa.

No domingo 5 de Abril, o Sun-day, ou Dia do Sol, encerra as celebrações das “100 Horas de Astronomia” com propostas dedicadas à estrela. Em Portugal, à semelhança do que aconteceu na "Alvorada do AIA2009" a 1 de Janeiro, a organização solicita a comparência de todas as pessoas com capacidade de observar o Sol em segurança para dar a conhecer a estrela a amigos, vizinhos, ou mesmo a desconhecidos que passam na rua.

O Ano Internacional de Astronomia é organizado em Portugal pela Sociedade Portuguesa de Astronomia, com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), da Fundação Calouste Gulbenkian, o Ciência Viva e a European Astronomical Society (EAS).

Imagens:

Eventos em Portugal:


Projectos globais no mundo:

- Opening Event: A VIP event at the Franklin Institute in Philadelphia will feature one of Galileo's telescopes. The Director of the Institute and Museum of the History of Science in Florence, which holds the two remaining Galileo telescopes, will speak on the importance of Galileo's telescopes and the discoveries he made with them.

- Live Science Centres Webcast: Select science centres will participate in a live webcast featuring discussions on current topics in astronomy on 2 April. Live observations will be made by visitors to select science centres using telescopes operated remotely over the Internet. Science centres worldwide will feature enhanced outreach programmes, many with the participation of amateur astronomy groups holding public observing sessions.

- Around the World in 80 Telescopes, 24-hour Research Observatory Webcasts: Astronomers at professional research observatories around the world will take viewers inside their telescope domes and control rooms during a live 24-hour webcast on 3 April.

- 24-hour Global Star Party: For 24 hours on 4 April, telescopes (including solar telescopes) will be made available for public viewing by astronomy clubs and observing groups free of charge. The goal is to allow as many people as possible to have a chance to look through a telescope.

- Sun Day: 5 April, sunrise local time and organised by the Solar Physics Task Group. We all owe our existence to our closest stellar neighbour, the Sun. Without it, all life on earth would perish. The last day of 100 Hours of Astronomy (Sunday) has been set aside to highlight and celebrate the Sun.

- 100HA Junior: This is a collaboration between 100 Hours of Astronomy and Universe Awareness (also an IYA global cornerstone project) to connect amateur and professional astronomers with young children around the world during (and perhaps after) 100 Hours of Astronomy.

Mais informações:

27 março, 2009

Observatório Astronómico de Lisboa

Centro de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Lisboa

Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa



O Observatório Astronómico de Lisboa (OAL) promove Palestras públicas mensais que têm lugar no Edifício Central, pelas 21.30 horas da última sexta-feira de cada mês.

A próxima sessão decorrerá no dia 27 de Março de 2009 e terá como tema:

"Astronomia e Astrofísica:
Compreender o Universo com aplicações práticas"
Prof. Doutor João Lin Yun.
CAAUL/FCUL

Neste Ano Internacional da Astronomia que se celebra, divagaremos um pouco sobre a importância de uma ciência que "não serve para nada"! Mostrarei como esta ideia é falsa e como "o sonho continua vivo". Passarei em revista algumas das principais descobertas da Astronomia que influenciaram profundamente a ideia que temos do universo físico em que vivemos.

Darei alguns exemplos do "modus operandi" da investigação em Astronomia e apresentarei também algumas perspectivas para o futuro desta ciência que é de todos nós.



VIDEODIFUSÃO DA PALESTRA PÚBLICA

Como vem sendo hábito anunciamos que o OAL fará a transmissão da sua Palestra Mensal através da Internet.

No dia 27 de Fevereiro a partir das 21h30 visite o seguinte endereço:
http://live.fccn.pt/oal/



A entrada na Tapada da Ajuda faz-se pelo portão da Calçada da Tapada, em frente ao Instituto Superior de Agronomia.

Para mais informações, use o telefone 213 616 730, ou consulte:
http://www.oal.ul.pt/palestras

20 março, 2009

Chegou a Primavera!

(imagem do Google de hoje)
Equinócio: início da Primavera

Este ano o Equinócio ocorre no dia 20 de Março às 11.44 horas. Este instante marca o início da Primavera no Hemisfério Norte. Esta estação prolonga-se por 92,79 dias até ao próximo Solstício que ocorre no dia 21 de Junho às 06.46 horas.

"Vai-te ao longo da costa discorrendo,
e outra terra acharás de mais verdade,
lá quase junto donde o Sol ardendo
iguala o dia e noite em quantidade."
Lusíadas,II,63.

Equinócio: instante em que o Sol, no seu movimento anual aparente, corta o equador celeste. A palavra de origem latina significa "noite igual ao dia", pois nestas datas dia e noite têm igual duração.

16 março, 2009

Ano Internacional da Astronomia na FNAC de Alfragide


2009: Ano Internacional da Astronomia

Ciclo - O Caminho das Estrelas

01.03.2009-31.03.2009

FNAC Alfragide

Desde sempre o homem sentiu um fascínio pela imensidão do universo, e neste ano em especial em que se comemoram os 400 anos sobre as primeiras observações de Galileu Galilei, a Fnac em parceria com a APAA (Assoc. Portuguesa de Astrónomos Amadores) convida-o a descobrir durante esta quinzena as várias vertentes da Astronomia, num ciclo de conversas, encontros, exposições virtuais e observações astronómicas. Contamos com a presença dos especialistas Prof. Guilherme de Almeida e Pedro Ré Presidente da APAA, os Astrofotógrafos Alcaria Rego, José Canela, Paulo Casquinha e Miguel Claro, Francisco Gomes perito em Observação Astronómica e José Augusto Marques, conferencista do Planetário.



NOTA: está em exposição uma foto de um membro deste Blog, o João Cruz - visitem!

15 março, 2009

Saturno visto da Terra ao longo de 2 anos

Desde 2007 até agora, já passámos 3 vezes por Saturno, na nossa órbita à volta do Sol.

Saturno (que demora 29 anos a completar uma órbita) apenas se deslocou "um pouco" no céu nocturno.

Este ano de 2009 é especial pois o nosso planeta fica alinhado com o plano dos anéis, fazendo-os "desaparecer". Este fenómeno é visível nesta sequência de imagens que mostram como os anéis se vão fechando até ao momento em que ficarão alinhados com a Terra. Infelizmente não será possível observar esse acontecimento, pois nessa altura o Sr. dos Anéis estará por trás do Sol, inviabilizando qualquer tentativa de o conseguir a partir da Terra :(

Enquanto que o nosso planeta percorreu quase 2 mil milhões de Km (2 órbitas), Saturno apenas percorreu 628 milhões de km... se as contas não estão erradas :) para perceber este fenómeno, basta pensarmos no que acontece com a patinadora no gelo, quando gira sobre si mesma: se "abrir" os braços, roda devagar, mas quando os "fecha" junto ao peito, acelera a velocidade de rotação.

Nota: A foto de 2007 foi tirada com recurso a uma distância focal mais curta que as restantes, pelo que o tamanho do planeta não se encontra à mesma escala que as outras duas.



(c) Fotos de João Cruz

09 março, 2009

O Mistério da Estrelinha Curiosa - currículo da autora


Aqui fica a capa do livro "O Mistério da Estrelinha Curiosa", que a minha amiga Leonor Lourenço vai mostrar na Livraria Arquivo (em Leiria) no próximo domingo, dia 15 de Março de 2009, pelas 15.00 horas (com a apresentação do Doutor Luís Filipe Barbeiro - ESEC/IPL), conforme por nós aqui anteriormente referido.

E, já agora, um breve resumo do CV da autora:
Leonor Lourenço vive em Leiria. É Educadora de Infância há 25 anos e Mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação do Porto.

Iniciou a sua actividade literária na Revista Rua Sésamo.

Participou em dobragens de desenhos animados para a RTP (Estúdios SomNorte) onde emprestou a voz a diversas personagens.

Frequentou um curso de Ilustração/Banda Desenhada no Centro no Centro de Arte e Comunicação Visual em Lisboa (Ar.Co) e diversos workshops sobre ilustração.

Recebeu o primeiro prémio do concurso literário “Sussurrar uma história” promovido pela Livraria Arquivo em Leiria, com o trabalho “Em Alto Mar”.

À procura de planetas com vida

Missão do telescópio Kepler começa esta noite
Espaço: Um grande olho no céu à espreita de pontinhos azuis
06.03.2009 - 09h58 Ana Gerschenfeld

Se tudo correr bem, dentro de horas o novo telescópio espacial Kepler da NASA partirá de cabo Canaveral a bordo de um foguetão. A sua missão: descobrir outros "pontinhos azuis"- ou seja, planetas parecidos com o nosso que orbitem em torno de estrelas parecidas com o nosso Sol.

A anos-luz da Terra, algures na nossa galáxia, a Via Láctea, uma anónima e modesta estrela alberga um pequeno planeta, feito de continentes de pedra, oceanos de água líquida e céus azuis. Tal como a Terra, esse planeta completa uma órbita em torno do seu sol em mais ou menos um ano. Não é nem muito quente nem muito frio: tem a temperatura ideal para o desenvolvimento da vida. Quem sabe, talvez já esteja cheio de vida... O que não daríamos para o ver!

O mais provável é que isso nunca venha a acontecer - mesmo um punhado de anos-luz são milhões de quilómetros a mais para os seres humanos lá chegarem em pessoa. Mas os astrónomos acreditam que é, contudo, possível fazer algo que se aproxima disso: estudar a atmosfera de planetas como este - se é que existem -, determinar se são habitáveis e descobrir eventuais sinais da presença de vida.

É um velho sonho da Humanidade, saber se estamos ou não sozinhos no Universo. O nosso "pontinho azul", como lhe chamava o conhecido astrónomo Carl Sagan, será único, ou haverá muitos outros como ele noutros cantos da Via Láctea e até de outras galáxias? E se houver muitos outros, haverá ou não vida neles? E se houver vida neles, será vida inteligente, consciente, ou apenas vida primitiva?

O telescópio espacial Kepler da NASA, que deverá ser lançado por volta das 4h da próxima madrugada (hora de Lisboa) a partir de cabo Canaveral, na Florida, a bordo de um foguetão Delta2, é a concretização da primeira etapa indispensável na exploração desta nova fronteira. Tem por missão descobrir mais pontinhos azuis. "O Kepler é uma importante pedra angular para percebermos que tipos de planetas se formam à volta de outras estrelas", diz Debra Fischer, "caçadora" de planetas extra-solares da Universidade Estadual de São Francisco, citada num comunicado da NASA. "As suas descobertas (...) vão ser o nosso guia para conseguirmos um dia vislumbrar um pontinho azul como o nosso à volta de outra estrela da nossa galáxia."

Até à data, conhecem-se mais de 300 "exoplanetas", mas nenhum deles parece ser muito semelhante à Terra; costumam ser muito maiores e a maioria são bolas gigantes de gases incandescentes. De facto, nem o telescópio espacial Hubble nem os mais potentes telescópios terrestres seriam capazes de detectar planetas do tamanho da Terra a distâncias tão imponentes. Espera-se que as coisas mudem radicalmente com a chegada do Kepler ao espaço, que, para mais, ao contrário dos outros telescópios, se dedicará em exclusividade à pesquisa de exoplanetas (a sonda Corot, lançada pela Agência Espacial Europeia em 2006, também à procura de planetas extra-solares, é menos potente do que o Kepler e menos adequada à detecção de planetas tipo-Terra).

Olhar fixamente as estrelas

O novo telescópio, baptizado em homenagem a Johannes Kepler (1571-1630), pai da astronomia moderna, pesa uma tonelada e custou 478 milhões de euros. É basicamente composto por uma câmara digital de 95 milhões de pixéis - a mais potente de sempre a ser colocada no espaço - e de um espelho com quase um metro e meio de diâmetro. A abertura do telescópio é quase de um metro.

Colocado em órbita à volta do Sol, seguirá o rasto ao nosso planeta e ficará orientado para uma porção do céu visível do Hemisfério Norte da Terra, na direcção das constelações Cisne e Lira. Ao longo dos pelo menos três anos (pode chegar aos seis) que deverá durar a sua missão, vai realizar um gigantesco "recenseamento planetário", segundo as palavras de Jon Morse, director da divisão de Astrofísica da NASA, olhando fixamente e simultaneamente para mais de 100 mil estrelas nessa região da Via Láctea.

Para detectar exoplanetas, o Kepler utilizará o método dito dos trânsitos, que consiste em detectar pequeníssimas flutuações da radiação, "piscadelas" na luz emitida pelas estrelas, devidas à passagem de um planeta à sua frente. O Kepler é um aguçadíssimo olho no céu, como explica James Fanson, responsável da missão, no mesmo documento da NASA: "Se o Kepler olhasse para a Terra à noite a partir do espaço, seria capaz de detectar a diminuição da luz num alpendre se alguém passasse à frente da lâmpada". O que equivale ainda a ser capaz, para recorrer à imagem usada pelo New York Times, de detectar a variação de luz produzida por uma pulga a rastejar à superfície do farol de um carro. O Kepler fará observações em contínuo, sem desviar o olho dos seus alvos e sem pestanejar, e enviará para a Terra os dados recolhidos uma vez por semana.

Como os planetas que o Kepler procura devem ser parecidos com o nosso e a sua estrela parecida com o nosso Sol, isso significa, em princípio, que esses planetas demoram cerca de um ano a completar uma volta em torno da estrela. Portanto, ao longo da sua missão, o novo telescópio deverá ser capaz de confirmar várias vezes a redução periódica da luminosidade de uma dada estrela de forma a garantir que essa variação se deve à passagem de um planeta e não a algum outro fenómeno. Mas isso também quer dizer que só no fim da missão é que se saberá quantos planetas do tipo da Terra é que o Kepler encontrou.

Contudo, os responsáveis da missão têm uma ideia do número em causa. Pensam que o Kepler deverá detectar centenas de planetas de todo o tipo - muitos deles gigantes quentíssimos - e que, se de facto os pontinhos azuis forem moeda corrente na nossa galáxia, umas dezenas dos exoplanetas descobertos serão parecidas com a Terra e estarão situadas na zona "habitável" do seu respectivo sistema solar.

Umas dezenas pode parecer muito pouco, dado o número de estrelas que o telescópio irá perscrutar. Mas o facto é que, entre aquelas 100 mil estrelas e o seu eventual cortejo de planetas, nem todos se vão alinhar com o Kepler para serem "apanhados" pela objectiva. Estima-se que um tal alinhamento apenas se produza em um por cento dos casos. Muitos planetas como o nosso passarão, portanto, despercebidos, mesmo que existam.

Mas nada garante o desenlace: "Se descobrirmos que a maior parte das estrelas possui planetas como a Terra", diz William Borucki, responsável científico da missão, "isso implica que as condições que sustentam o desenvolvimento da vida poderão ser comuns na nossa galáxia. Mas se encontrarmos poucos ou nenhuns planetas destes, isso indicará que talvez estejamos sozinhos."

07 março, 2009

Apresentação do livro "O Mistério da Estrelinha Curiosa"


A minha amiga Leonor Lourenço vai fazer o lançamento na Livraria Arquivo (em Leiria) no próximo domingo, dia 15 de Março de 2009, pelas 15.00 horas (com a apresentação a cargo do Doutor Luís Filipe Barbeiro, docente na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Leiria) do seu livro "O Mistério da Estrelinha Curiosa", publicado pela Soregra Editores.

É bom saber, neste Ano Internacional da Astronomia, que há uma autora que consegue aliar tão habilmente a ciência e o conto infantil... Como li antecipadamente este livro infantil excelentemente ilustrado e ainda melhor escrito, recomendo vivamente a sua aquisição - eu lá estarei, para que o meu exemplar seja autografado pela autora...!

Comparece - a entrada é livre!

O Telescópio Espacial Hubble foi lançado para o espaço há 22 anos

O Telescópio Espacial Hubble é um satélite que transporta um grande telescópio para a luz visível e infravermelha . Foi lançado pela agên...