31 dezembro, 2009

Observação do Eclipse

(Clicar para aumentar - fonte Espenak/NASA)

Para quem esteja em Leiria, pode vir ter connosco até à Travessa da Rua das Olhalvas, como referimos em post anterior, bastando um e-mail (fernando.oliveira.martins@gmail.com) ou telefonema (960 081 251), isto o tempo (e S. Pedro) o permitir...

Para os restantes, há a hipótese de irem olhando para o céu, a ver se vêem a Lua. Este astro nasce à hora do pôr do Sol (cerca das 17.15 horas) e o nosso satélite levanta-se do horizonte no momento em que entra na penumbra (uma sombra difusa, difícil de observar...). Às 18.52 horas a Lua entra na sombra (aquilo a que os astrónomos chamam de umbra...) e, se olharem para a parte de baixo da Lua (Polo Sul) vêem essa mesma sombra, durante uma hora e dois minutos (sai da umbra às 19.54 horas). No seu ponto máximo (19.23 horas) somente cerca de 8% da Lua estará debaixo da sombra da Terra. O final do eclipse é às 21.30 horas, mas, depois das 19.54 horas, não há nada para ver...

Lua azul

Hoje é dia de eclipse e de Lua azul! Esta última expressão refere-se ao facto de haver duas luas cheias nesse mês (pois, em Dezembro de 2009, houve Lua Cheia a 2 de Dezembro e há novamente a 31 de Dezembro...).

Recordemos este raro evento (ainda mais raro porque associado a um eclipse...) com uma curiosa música de Amália Rodrigues:


30 dezembro, 2009

Observação do Eclipse parcial da Lua

Amanhã há um Eclipse parcial da Lua visível em Portugal a horas decentes! Se o bom tempo o permitir e houver interessados, observaremos o fenómeno na Travessa da Rua das Olhalvas, em Leiria, junto ao Café Olhalvas - ver localização no seguinte mapa interactivo:


Ver mapa maior

Para quem quer saber mais sobre o assunto, sugere-se a visita à página da NASA de Fred Espenak sobre Eclipses:

Eis ainda um texto com os principais dados científicos do eclipse, feito pelo Observatório Astronómico de Lisboa:
A noite de 31 de Dezembro oferece o último evento astronómico do ano, o eclipse parcial da Lua. Só nos resta esperar boas condições meteorológicas para poder presenciar este belo espectáculo e findar o ano em grande.

As efemérides do Eclipse parcial da Lua, em 31 de Dezembro, para Lisboa, são:

17.15 - A Lua entra na penumbra

18.52 - A Lua entra na umbra

19:23 - Meio do eclipse

19.54 - A Lua sai da umbra

21.30 - A Lua sai da penumbra

Grandeza do eclipse = 0,082 (considerando o diâmetro da Lua como unidade)

Será um eclipse "quase" penumbral, pois a Lua atravessa o cone de sombra da Terra quase tangencialmente.

Será visto na Europa, na África, na Ásia, na parte extrema da Austrália Ocidental e no oceano Índico.

Eclipse parcial da Lua é um fenómeno celeste que ocorre quando a Lua penetra, parcialmente, no cone de sombra projectado pela Terra. Isto acontece sempre que o Sol, a Terra e a Lua se encontram próximos ou em perfeito alinhamento, estando a Terra no meio destes outros dois corpos. O eclipse parcial da Lua só pode ocorrer quando coincide com a fase de Lua cheia e a passagem dela pelo seu nodo orbital.

25 dezembro, 2009

O nosso Poema de Natal

Como sempre, a minha Mãe e o meu Pai mandam as Boas Festas aos amigos em carta, sempre com poema inédito e que o nosso Blog gosta de partilhar com os seus leitores. Este ano, para celebrar a chegada de uma Senhora dos Caminhos que se veio abeirar de uma Avenida nova da minha terra (Vila Franca das Naves), aqui fica o nosso poema de Natal...

Nossa Senhora dos Caminhos

Tenho que confessar o meu pecado:
- Roubei a mãe ao Menino Jesus!...
(Ele já nem pequenino é,
e fica muito bem com S. José.)

....Fugi com Ela debaixo do braço
....e, a arfar de cansaço,
....pu-lA num pedestal de granito
...........bem bonito,
....à beira da avenida,
....presa com pedra e cal,
....p'ra ninguém ma roubar...

...Mas {há sempre um mas...}
o Natal aproximou-se,
o Menino volta ser pequenino
......e faz beicinho,
a chamar pela Mãe,
e a dizer que não tem ninguém...

....S. José bem O consola:
....- Deixa lá, meu Amor...
....porém Ele
....chora...chora...chora...

Então Deus-Pai,
que tudo vê
e tudo pode,
prestes acode
e desce, na Sua Majestade!

....- Ouve, Meu Filho,
....não chores mais.
....Ora vê: aqui tens A do Céu,
....a verdadeira,
....a Tua Mãe,
....a de Belém.

O Menino já não chora...
......ri...ri...ri...
numa gargalhada feliz e doirada,
e dorme descansadinho,
abraçado a Ela,
uma soneca abençoada!

....{Se Deus Pai
....não viesse do Céu,
....que remédio tinha eu
....se não dar-Lhe a minha,
....a tal que eu furtei.}

... E foi assim que eu levantei do chão
mais um sonho de menina;
e ganhei
a minha Nossa Senhora dos Caminhos.

........E é Ela
........que, neste Natal,
........vem comigo,
........num abraço sentido,
........trazer-vos muito Amor
........e Carinho

.....................da
........................MariAlice
.....................e do
........................Agostinho

~ Natal de 2009 ~

17 dezembro, 2009

Sugestões LIDL de prendas de Natal

A LIDL, essa cadeia low cost alemã de supermercados que enxameia o nosso país, tem destas coisas todos os anos, por altura do Natal - propostas de prendas a baixo custo para aprendizes de cientistas...

Este ano a coisa não se alterou - há uma carrada de propostas, de excelente preço e óptima qualidade, que os interessados poderão adquirir a partir de 21.12.2009, a saber:


Microscópio Escolar


  • 3 objectivas rotativas de elevada qualidade (4x, 10x e 40x);
  • Lente de Barlow e 2 oculares de ângulo de visão largo (5x/16x);
  • Iluminação LED de luz incidente e transmitida, ambas através de corrente eléctrica;
  • Ampliação: 20-1280x;
  • Ocular para ligação ao PC através de USB e software;
  • Inclui mala e uma vasta gama de preparados e instrumentos;
  • 59 euros (-14% - valor anterior 69 euros);
  • Disponível em todo o país a partir de 21.12.2009.


Binóculo
Rocktrail

  • Objectiva 50 mm;
  • Regulação dióptrica;
  • Inclui: rosca de ligação a 1 tripé (não incluido);
  • Reprodução de imagem clara e de grande contraste através dos prismas Bak 4;
  • Mecanismo central anti-derrapante para uma focagem simples e precisa;
  • Oculares LE com borrachas de protecção, ideal para utilizadores de óculos;
  • 10 x ampliação;
  • 50 x zoom óptico;
  • Acessórios:
    • mala de transporte com alça e presilha para cinto,
    • fita para uso ao pescoço,
    • pano de limpeza.
  • 19,99 euros;
  • Disponível em todo o país a partir de 21.12.2009.


Binóculo Bresser

  • Objectivas de 60 mm;
  • Campo de visão de 52 m/ 1000 m;
  • Ampliação 10-30x;
  • Reprodução de imagem clara e de grande contraste;
  • 19,99 euros;
  • Disponível em todo o país a partir de 21.12.2009.

02 dezembro, 2009

V Congresso dos Jovens Geocientistas - Coimbra


Congresso dos Jovens Geocientistas

V Congresso

Geodiversidade(s)



Irá decorrer, nos dias 25 e 26 de Fevereiro de 2010, o V Congresso dos Jovens Geocientistas, organizado pelo Departamento de Ciências da Terra da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

Este Congresso destina-se aos alunos do 3º Ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário, numa parceria inovadora entre professores do Ensino Superior, professores do Ensino Básico e Secundário e alunos.


Os Objectivos do Congresso são:

Fomentar laços de trabalho e de colaboração entre professores e alunos das escolas básicas e secundárias e professores do Departamento de Ciências da Terra (DCT) da Universidade de Coimbra (UC).


O congresso está centrado nos alunos e procura o desenvolvimento de competências promotoras da literacia científica e do seu desenvolvimento enquanto cidadãos, das quais se destacam:
  • A aprendizagem através da resolução de problemas;
  • A concepção e implementação de percursos de pesquisa;
  • A estimulação de atitudes críticas e solidárias em contexto de trabalho cooperativo;
  • A promoção da autonomia através da responsabilização no desenvolvimento dos trabalhos;
  • A compreensão dos mecanismos de validação e divulgação de resultados;
  • A compreensão do papel das Geociências na progressão do conhecimento sobre o Universo, a Terra, a Vida e a Sociedade;
  • O reconhecimento da relevância das Geociências no desenvolvimento das sociedades actuais;
  • A adopção de atitudes que contribuam para a sustentabilidade no planeta Terra.

01 dezembro, 2009

Festa da Astronomia das Escolas de Leiria - fotos (III)

Modelo do Sistema Solar (à escala) do Jardim Escola João de Deus de Leiria - apresentação:











Festa da Astronomia das Escolas de Leiria - fotos (II)

Modelo Sol-Terra-Lua do Jardim Escola João de Deus de Leiria:




Parte exterior do Bar dos Pais e Encarregados de educação do 6º A:


Atelier de construção de modelos de constelações - professor Paulo Simões:



Festa da Astronomia das Escolas de Leiria - as fotos

Apresentação do livro "O Mistério da Estrelinha Curiosa" pela autora (Leonor Lourenço):







Festa da Astronomia das Escolas de Leiria - resenha final da actividade

No passado dia 21 de Novembro de 2009 decorreu, na Escola Básica Dr. Correia Mateus, em Leiria, a Festa da Astronomia das Escolas de Leiria, inserida nas actividades da Semana da Ciência e Tecnologia 2009 e do Ano Internacional da Astronomia. Organizada pelo Núcleo de Astronomia Galileu Galileu, pelos Blogues AstroLeiria e Geopedrados e pelos professores dos Sub-Departamentos de Ciências Naturais da Escola Correia Mateus, teve a participação de diversos pais e encarregados de educação, alunos, professores da nossa Escola (e de outras do seu Agrupamento) e de muitas outras Escolas.

À parte o facto de não ter tido observação astronómica (o céu esteve nublado...) tudo correu de feição: o bar dos pais do 6º A (em recolha de fundos para irem num intercâmbio de turmas aos Açores...!) era excelente, o modelo à escala, com um Júpiter de 1,5 metros diâmetro equatorial, dos planetas do sistema solar, feito pelos alunos e professores do Jardim Escola João de Deus de Leiria, estava um mimo, o Atelier de construção de modelos de constelações (feito pelo professor Paulo Simões) foi um sucesso, a apresentação do livro infantil “O Mistério da Estrelinha Curiosa” (feito pela autora, a educadora Leonor Lourenço) deixou-nos boquiabertos e até o modesto contributo deste vosso amigo não deslustrou (mostrei duas apresentações multimédia, uma ficheiro html sobre tempo de vida e aniversários noutros planetas, expliquei o céu nocturno com o programa SkyMap Pro 11 e ainda mostrei como usar este último programa).

Mas, sem dúvida, o ex-libris da nossa Festa foi o modelo mecânico Sol-Terra-Lua, feito por alunos, pais e encarregados de educação, funcionários e professores do Jardim Escola João de Deus de Leiria - estava um portento! Quem pode colocar-se na bicicleta que o movia ou pode ver a girar ficou desejoso de repetir a experiência - assim era fácil perceber os eclipses, as fases da lua ou mesmo as estações.

Aos muitos participantes que não se deixaram enganar pela chuva, os nossos agradecimentos - aos outros, a promessa de repetir o evento noutra data...!

Só para aguçar o apetite, os próximos posts terão umas fotos da actividade...

28 novembro, 2009

Tertúlia da SCT 2009 - final

Rómulo Vasco da Gama de Carvalho/António Gedeão
(Lisboa, 24.11.1906 - Lisboa, 17.02.1997)

(Caricatura in Blog Desenhos do Rui)

Filho de um funcionário dos correios e telégrafos e de uma dona de casa, Rómulo Vasco da Gama de Carvalho nasceu a 24 de Novembro de 1906 na lisboeta freguesia da Sé. Aí cresceu, juntamente com as irmãs, numa casa modesta da rua do Arco do Limoeiro (hoje rua Augusto Rosa), no seio de um ambiente familiar tranquilo, profundamente marcado pela figura materna, cuja influência foi decisiva para a sua vida.

Na verdade, a sua mãe, apesar de contar somente com a instrução primária, tinha como grande paixão a literatura, sentimento que transmitiu ao filho Rómulo, assim baptizado em honra do protagonista de um drama lido num folhetim de jornal. Responsável por uma certa atmosfera literária que se vivia em sua casa, é ela que, através dos livros comprados em fascículos, vendidos semanalmente pelas casas, ou, mais tarde, requisitados nas livrarias Portugália ou Morais, inicia o filho na arte das palavras. Desta forma Rómulo toma contacto com os mestres - Camões, Eça, Camilo e Cesário Verde, o preferido - e conhece As Mil e Uma Noites, obra que viria a considerar uma da suas bíblias.

Criança precoce, aos 5 anos escreve os primeiros poemas e aos 10 decide completar "Os Lusíadas" de Camões. No entanto, a par desta inclinação flagrante para as letras, quando, ao entrar para o liceu Gil Vicente, toma pela primeira vez contacto com as ciências, desperta nele um novo interesse, que se vai intensificando com o passar dos anos e se torna predominante no seu último ano de liceu.

Este factor será decisivo para a escolha do caminho a tomar no ano seguinte, aquando da entrada na Universidade, pois, embora a literatura o tenha acompanhado durante toda a sua vida, não se mostrava a melhor escolha para quem, além de procurar estabilidade, era extremamente pragmático e se sentia atraído pelas ciências justamente pelo seu lado experimental. Desta forma, a escolha da área das ciências, apesar de não ter sido fácil, dá-se.

E assim, enquanto Rómulo de Carvalho estuda Ciências Físico-Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, as palavras ficam guardadas para quando, mais tarde, surgir alguém que dará pelo nome de António Gedeão.

Em 1932, um ano depois de se ter licenciado, forma-se em ciências pedagógicas na faculdade de letras da cidade invicta, prenunciando assim qual será a sua actividade principal daí para a frente e durante 40 anos - professor e pedagogo.

Começando por estagiar no Liceu Pedro Nunes e ensinar durante 14 anos no Liceu Camões, Rómulo de Carvalho é, depois, convidado a ir leccionar para o liceu D. João III, em Coimbra, permanecendo aí até, passados oito anos, regressar a Lisboa, convidado para professor metodólogo do grupo de Físico-Químicas do Liceu Pedro Nunes.

Exigente, comunicador por excelência, para Rómulo de Carvalho ensinar era uma paixão. Tal como afirmava sem hesitar, ser Professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria mas tem de ser uma paixão. Uma dedicação. E assim, além da colaboração como co-director da "Gazeta de Física" a partir de 1946, concentra, durante muitos anos, os seus esforços no ensino, dedicando-se, inclusive, à elaboração de compêndios escolares, inovadores pelo grafismo e forma de abordar matérias tão complexas como a física e a química. Dedicação estendida, a partir de 1952, à difusão científica a um nível mais amplo através da colecção Ciência Para Gente Nova e muitos outros títulos, entre os quais Física para o Povo, cujas edições acompanham os leigos interessados pela ciência até meados da década de 1970. A divulgação científica surge como puro prazer - agrada-lhe comunicar, por escrito e com um carácter mais amplo, aquilo que, enquanto professor, comunicava pela palavra.

A dedicação à ciência e à sua divulgação e história não fica por aqui, sendo uma constante durante toda a sua a vida. De facto, Rómulo de Carvalho não parou de trabalhar até ao fim dos seus dias, deixando, inclusive trabalhos concluídos, mas por publicar, que por certo vêm engrandecer, ainda mais, a sua extensa obra científica.

Apesar da intensa actividade científica, Rómulo de Carvalho não esquece a arte das palavras e continua, sempre, a escrever poesia. Porém, não a considerando de qualidade e pensando que nunca será útil a ninguém, nunca tenta publicá-la, preferindo destruí-la.

Só em 1956, após ter participado num concurso de poesia de que tomou conhecimento no jornal, publica, aos 50 anos, o primeiro livro de poemas Movimento Perpétuo. No entanto, o livro surge como tendo sido escrito por outro, António Gedeão, e o professor de física e química, Rómulo de Carvalho, permanece no anonimato a que se votou.

O livro é bem recebido pela crítica e António Gedeão continua a publicar poesia, aventurando-se, anos mais tarde, no teatro e,depois, no ensaio e na ficção.

A obra de Gedeão é um enigma para os críticos, pois além de surgir, estranhamente, só quando o seu autor tem 50 anos de idade, não se enquadra claramente em qualquer movimento literário. Contudo o seu enquadramento geracional leva-o a preocupar-se com os problemas comuns da sociedade portuguesa, da época.

Nos seus poemas dá-se uma simbiose perfeita entre a ciência e a poesia, a vida e o sonho, a lucidez e a esperança. Aí reside a sua originalidade, difícil de catalogar, originada por uma vida em que sempre coexistiram dois interesses totalmente distintos, mas que, para Rómulo de Carvalho e para o seu "amigo" Gedeão, provinham da mesma fonte e completavam-se mutuamente.

A poesia de Gedeão é, realmente, comunicativa e marca toda uma geração que, reprimida por um regime ditatorial e atormentada por uma guerra, cujo fim não se adivinhava, se sentia profundamente tocada pelos valores expressos pelo poeta e assim se atrevia a acreditar que, através do sonho, era possível encontrar o caminho para a liberdade. É deste modo que "Pedra Filosofal", musicada por Manuel Freire, se torna num hino à liberdade e ao sonho.E, mais tarde, em 1972, José Nisa compõe doze músicas com base em poemas de Gedeão e produz o álbum "Fala do Homem Nascido".

O professor Rómulo de Carvalho, entretanto, após 40 anos de ensino,em 1974, motivado em parte pela desorganização e falta de autoridade que depois do 25 de Abril tomou conta do ensino em Portugal, decide reformar-se. Exigente e rigoroso, não se conforma com a situação. Nessa altura é convidado para leccionar na Universidade mas declina o convite.

Incapaz de ficar parado, nos anos seguintes dedica-se por inteiro à investigação publicando numerosos livros, tanto de divulgação científica, como de história da ciência. Gedeão também continua a sonhar, mas o fim aproxima-se e o desejo da morrer determina, em 1984, a publicação de Poemas Póstumos.

Em 1990, já com 83 anos, Rómulo de Carvalho assume a direcção do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa, sete anos depois de se ter tornado sócio correspondente da Academia de Ciências, função que desempenhará até ao fim dos seus dias.

Quando completa 90 anos de idade, a sua vida é alvo de uma homenagem a nível nacional. O professor, investigador, pedagogo e historiador da ciência, bem como o poeta, é reconhecido publicamente por personalidades da política, da ciência, das letras e da música.

Infelizmente, a 19 de Fevereiro de 1997 a morte leva-nos Rómulo de Carvalho. Gedeão, esse já tinha morrido alguns anos antes, aquando da publicação de Poemas Póstumos e Novos Poemas Póstumos.

Avesso a mostrar-se, recolhido, discreto, muito calmo, mas ao mesmo tempo algo distante, homem de saberes múltiplos e de humor subtil, Rómulo de Carvalho que nunca teve pressa, mas em vida tanto fez, deixa, em morte, uma saudade imensa da parte de todos quantos o conheceram e à sua obra.

Tertúlia da SCT 2009 - VI

Como está quase a terminar a Semana da Ciência e Tecnologia de 2009, não podíamos deixar de recordar o mais famoso poema de Gedeão, imortalizado no saudoso programa Zip-Zip por Manuel Freire, aqui num filme muito interessante retirado do YouTube.



Pedra filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
É tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral
pináculo de catedral
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo de Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Columbina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

in Movimento Perpétuo, António Gedeão (1956)

26 novembro, 2009

Tertúlia da SCT 2009 - V


Mais um poema de António Gedeão profusamente cantado (só tenho pena de não encontrar a versão de Manuel Freire...):


Poema da malta das naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.



in Teatro do Mundo - António Gedeão (1958)

25 novembro, 2009

Tertúlia SCT - IV



Mais um poema de António Gedeão, magistralmente cantado por Adriano Correia de Oliveira e com música de José Niza:




Fala do Homem nascido


Venho da terra assombrada
do ventre de minha mãe
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci

Trago boca para comer
e olhos para desejar
tenho pressa de viver
que a vida é água a correr

Venho do fundo do tempo
não tenho tempo a perder
minha barca aparelhada
solta rumo ao norte
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada

Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham
nem forças que me molestem
correntes que me detenham

Quero eu e a natureza
que a natureza sou eu
e as forças da natureza
nunca ninguém as venceu

Com licença com licença
que a barca se fez ao mar
não há poder que me vença
mesmo morto hei-de passar
com licença com licença
com rumo à estrela polar

23 novembro, 2009

Tertúlia SCT 2009 - II


Para começar bem, aqui fica um filme, feito pelo autor deste post, com base no poema de António Gedeão Lágrima de Preta, cantado na sua versão original por Adriano Correia de Oliveira, com música de José Niza.




Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.


Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.


Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.


Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.


Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:


Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

Tertúlia da Semana da Ciência e Tecnologia 2009


Começamos hoje (com uns dias de atraso...) a nossa Tertúlia on line comemorativa da Semana da Ciência e Tecnologia 2009.

Esta tertúlia serve, sobretudo, para fazer a comemoração da Semana da Ciência e Tecnologia 2009 e do aniversário do nascimento de Rómulo de Carvalho, com publicação de poemas, músicas, filmes e textos sobre este cientista e pedagogo e ainda dos textos do seu pseudónimo António Gedeão.

Para já este post é colocado em estereofonia pelos seguintes Blogues:

19 novembro, 2009

Faz hoje 40 anos que a Apollo XII foi à Lua

Apollo 12 foi a segunda missão do Programa Apollo a pousar na superfície da Lua e a primeira a fazer um pouso de precisão num ponto pré-determinado do satélite, a fim de resgatar partes de uma sonda não tripulada enviada dois anos antes, a Surveyor 3, e trazer partes dela de volta à Terra, para estudos do efeito da permanência lunar sobre o material empregado no artefacto.





Apollo 12
Insígnia da missão
Estatísticas da missão
Módulo de comando Yankee Clipper
Módulo lunar Intrepid
Número de tripulantes 3
Lançamento 14 de novembro de 1969
16:22:00 UTC
Cabo Kennedy
Alunissagem 19 de novembro de 1969
06:54:35 UTC
3° 0' 44.60" S - 23° 25' 17.65" W
Oceanus Procellarum
Aterrissagem 19 de novembro de 1969
20:58:24 UTC
15° 47' S 165° 9' W
Órbitas 45 (órbitas lunares)
Duração ;Total:
10 d 4 h 36 min 24 s
Órbita lunar:
88 h 58 min 11,52 s
;Superfície lunar:
31 h 31 min 11,6 s
Imagem da tripulação
Conrad, Gordon e  Bean
Conrad, Gordon e Bean
Navegação
Último
Último
Apollo11 LOGO.JPGApollo 11
Apollo 13Apollo 13-insignia.png
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Fala do Velho do Restelo ao Astronauta


Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome.



Poema de José Saramago (cantado por Manuel Freire)