23 fevereiro, 2007

Zeca Afonso - 20 anos de saudade...



Achégate a mim, Maruxa



Achégate a mim, Maruxa
chégate ben, moreniña
quérome casar contigo
serás miña mulleriña

Adeus, estrela brilante
compañeiriña da lua
moitas caras teño visto
mais como a tua ningunha

Adeus lubeiriña triste
de espaldas te vou mirando
non sei que me queda dentro
que me despido chorando


Maria



Maria
Nascida no monte
À beira da estrada
Maria
Bebida na fonte
Nas ervas criada

Talvez
Que Maria se espante
De ser tão louvada
Mas não
Quem por ela se prende
De a ver tão prendada

Maria
Nascida do trevo
Criada na trigo
Quem dera
Maria que o trevo
Casara comigo

Prouvera
A Maria sem medo
Crer no que lhe digo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo

Maria
De todas primeira
De todas menina
Maria
Soubera a cigana
Ler a tua sina

Não sei
Se deveras se engana
Quem demais se afina
Maria
Sol da madrugada
Flor de tangerina
Maria
Sol de madrugada
Flor de tangerina


Canção do Mar



Ó mar
Ó mar
Ó mar profundo
Ó mar
Negro altar
Do fim do mundo

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
O teu olhar

Ó mar
Ó mar
Ó mar profano
Ó mar
Verde mar
Em que me irmano

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
No teu olhar



Coro dos Caídos



Cantai bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia

Cantai cantai melancolias serenas
Como o trigo da moda nas verbenas
Cantai cantai guizos doidos dos sinos
Os vossos salmos de embalar meninos
Cantai bichos da treva e da opulência
A vossa vil e vã magnificência

Cantai os vossos tronos e impérios
Sobre os degredos sobre os cemitérios
Cantai cantai ó torpes madrugadas
As clavas os clarins e as espadas
Cantai nos matadouros nas trincheiras
As armas os pendões e as bandeiras

Cantai cantai que o ódio já não cansa
Com palavras de amor e de bonança
Dançai ó parcas vossa negra festa
Sobre a planície em redor que o ar empesta
Cantai ó corvos pela noite fora
Neste areal onde não nasce a aurora


Ali está o rio



Ali está o rio
Dois homens na margem estão
Se um dá um passo o outro hesita
Será um valente? O outro não?

Bom negócio faz um deles
Tem o triunfo na mão
Do outro lado do rio
Só um come o fruto, o outra não

Ao outro passo o p'rigo
Novos castigos virão
Se ambos venceram o rio
Só um tubo ganha o outro não

Na margem já conquistada
Só um venceu a valer
Perdeu o outro a saúde
Mas nada ganhou pra viver

Quem diz "nós" saiba ver bem
Se diz a verdade ou não
Ambos vencemos o rio
A mim quem me vence é o patrão

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